Orgulho de filha

Um dia, há uns dez anos atrás, eu tive uma conversa com minha mãe que me deixou muito triste. Naquela época ela tinha cinquenta e poucos anos e me disse que na vida não tinha mais muitas esperanças de realizar nada, que suas filhas estavam formadas e que dali em diante a vida dela seria envelhecer e morrer. Foi uma das nossas últimas conversas, antes de eu sair de casa e ir morar com meu namorido na Bahia. Uma conversa que me entristeceu e me marcou.

No ano seguinte minha irmã Francine, formada em medicina e aluna exemplar, estudou muito para fazer as provas de residência. Não passou na primeira, não passou na segunda e o cerco foi apertando. A família toda na expectativa. No dia que ela estava fazendo a penúltima das provas acordamos com uma notícia horrível: uma de nossas melhores amigas, a Denise, havia falecido num acidente de carro.

Era uma pessoa muito marcante, e aquele acontecimento gerou um baixo astral geral, não só na nossa família, como em nosso círculo de amizades. Minha irmã novamente não passou e aí só restava mais uma chance, a última prova de residência, justamente no único lugar em que ela realmente queria passar.

O ano era 2008 e passava a novela Duas Caras, em que a filha da personagem Célia Mara, interpretada pela atriz Renata Sorrah, era disléxica. Para estimular a filha, a personagem decide fazer vestibular junto com ela, mesmo sendo cinquentona. Minha mãe, vendo o negativismo se abater sobre todos e as chances de minha irmã diminuírem, decidiu então fazer o mesmo. Havia um programa de ingresso especial voltado para a terceira idade na faculdade onde minha outra irmã, a Debora, trabalhava e a mãe, que não havia ainda terminado o segundo grau, decidiu que ia tentar. Ela passou a estudar junto com a Fran para animá-la, foi aprovada no supletivo e posteriormente no vestibular para psicologia.

Então, em agosto de 2008, começou seu curso, ao mesmo tempo que minha irmã iniciava a residência, pois havia sido aprovada na última (e mais desejada) chance.

De lá para cá, foi uma longa e árdua caminhada. Nove anos em que ela cursou poucas disciplinas por semestre, sempre avaliando sua capacidade mental para conseguir estudar e ser aprovada nelas. Todos os anos, semestre a semestre, vinha a dúvida: paro a faculdade ou continuo? Alguns estimulavam, outros nem tanto, mas ela foi seguindo. “Vou devagar até onde conseguir“, dizia. Houveram semestres em que ela deu conta de fazer apenas duas disciplinas devido à carga de estudos exigidas, outros, como nestes dois últimos, em que acumulou disciplinas, estágios, trabalho de conclusão, sendo sempre aprovada em tudo.

Nesse meio tempo, minhas irmãs casaram e saíram de casa, ela vivenciou a síndrome do ninho vazio, a neta dela nasceu e ela não pode estar no aniversário de 3 anos, bateu o carro um tanto de vezes indo pra faculdade, perdeu alguns amigos e ganhou outros novos, enfim, sofreu perdas e vivenciou ganhos.

Neste julho de 2017 ela apresentou seu trabalho de conclusão de curso com o título “Psicossomática: a mente que habita o corpo que sofre”. A Debora e o pai estavam lá para ver e ouvir os elogios da banca. E hoje ela fará a oratória da sua turma na formatura, certamente levando nossa família às mais justificadas lágrimas.

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Minha mãe ouvindo a banca na apresentação do seu TCC
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Minha irmã Debora, meu pai Lecio e minha mãe Salete no dia “D”

Não é qualquer um que finaliza uma faculdade aos 68 anos e se diz disposta a abrir um consultório e trabalhar como psicóloga. Não é qualquer um que não desiste diante das adversidades da vida. Não é qualquer um que se reinventa, mesmo quando achava que já tinha perdido as esperanças na vida.

Hoje, para além de todo amor e cuidado que minha mãe sempre dispendeu conosco, ela nos ensinou novamente, sobre persistência e bravura, sobre resistir e não desistir, encontrar forças ao nadar contra maré, ser tenaz e obstinada. Hoje ela me fez ter vontade de tirar o pó deste blog, me fez lembrar que por um filho, pelos pais, a gente muitas vezes muda o rumo da vida. Hoje o dia é todo da Saletinha, o dia em que a conquista dela se cristaliza como nosso orgulho.

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Pode te beliscar, mãe, porque tu conseguistes e é tudo verdade! E manda baixar champa pras quirida!!!

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9 comentários sobre “Orgulho de filha

  1. Cami sangoi

    Eu sempre achei a tia Salete muito sábia. Lembro duas conversas que tive com ela há mais de 15 anos e Ainda levo os ensinamentos. Escolheu a profissão que ela sempre exerceu, só não tinha o diploma. Que orgulho tia e parabéns. Só não serei tua primeira paciente pela distância, mas certamente eu adoraria! 😘

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  2. Dani querida ! Que lindo o depoimento que vc fez!!!! Eu conheço a Salete e tenho o maior orgulho de ser amiga deste exemplo de mulher. Desde solteiras sempre vivemos perto uma da outra. Mas foi no crescimento dos filhos que ela me ensinou s maior das mensagens : Ela se deixou para tras e foi dar estrutura para que os filhos tivessem total apoio materno, para terem um histórico escolar com total sucesso. Conversavamos , pois costurava as mais lindas roupas para todos os que davam valor a algo de qualidade, E lá se passaram os anos. Paralelo ao meu papel de mae , eu fiz carreira universitaria e ela uma brilhante carreira de mae e dizia que quando as filhas estivessem encaminhadas, iria pensar nela.Quanta culpa eu sentia por nao fazer como ela . Mas graças a Deus tudo deu certo com meus filhos tambem. O tempo passou e qual a minha felicidade quando ela me falou que estava cursando psicologia. Fiquei muito muito feliz. E hoje, tens que comemorar Dani porque esta psicóloga é tua mãe. Maravilhosa! Serena ! Forte! Amiga! grande exemplo de determinação!!! Minha homenagem a você, minha amiga Salete!!!
    Parabéns a toda a família!! Bj grande pra vc Dani, da tia Somia

    Curtido por 1 pessoa

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